
Uma nova revisão publicada em 2025 na Science Advances está reacendendo o debate sobre a raridade, ou não, da inteligência no universo. Liderado por Dan Mills, geomicrobiologista afiliado ao Centro de Inteligência Extraterrestre da Penn State, o estudo questiona a teoria tradicional de que a inteligência de nível humano seria fruto de uma sequência de transições evolutivas extremamente raras e quase irrepetíveis.
Singularidades podem não ser tão singulares
Durante décadas, a chamada ‘hipótese dos passos difíceis’ sugeriu que eventos como a origem da vida complexa, a multicelularidade e a inteligência avançada dependeriam de transições altamente improváveis. No entanto, a revisão argumenta que o aparente caráter único da inteligência humana pode ser resultado de dois fatores principais: linhagens extintas e efeitos de prioridade.
Segundo os autores, muitas formas de vida potencialmente complexas podem ter surgido ao longo da história da Terra, mas desapareceram antes de deixar descendentes duradouros. Já os chamados “efeitos de prioridade” ocorrem quando um grupo pioneiro bem-sucedido altera o ambiente de tal maneira que dificulta o surgimento ou a sobrevivência de competidores evolutivos. Em outras palavras, o domínio de uma linhagem pode bloquear outras trajetórias possíveis.
Contribuições de especialistas
O debate também contou com análises de pesquisadores como Jason Wright, astrônomo conhecido por seus estudos sobre tecnossinaturas, e Anders Sandberg, pesquisador associado ao Future of Humanity Institute.
Sandberg destaca que a multicelularidade, frequentemente considerada um passo raro, pode não ser tão improvável quanto se supõe. Bactérias, por exemplo, agregam-se com relativa facilidade. No entanto, a consolidação de organismos multicelulares complexos depende de fatores ambientais, como vantagens adaptativas claras e níveis adequados de oxigênio planetário. Por outro lado, certas transições genéticas profundas, como mudanças fundamentais em códons de DNA e RNA, continuam sendo vistas como improváveis.
O contexto evolutivo da Terra
A própria história da Terra oferece pistas importantes. O planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos, mas os ancestrais humanos surgiram apenas há aproximadamente 7 milhões de anos, um evento relativamente recente na escala geológica. Esse surgimento tardio ocorreu após longos períodos de estabilização dos níveis de oxigênio atmosférico, elemento crucial para o desenvolvimento de organismos complexos.
Esse dado sugere que a inteligência pode depender menos de ‘milagres evolutivos’ e mais de condições ambientais sustentadas ao longo de grandes intervalos de tempo.
Implicações para a vida alienígena
Se a inteligência não exige uma sequência tão rara de eventos, as implicações para a busca por vida extraterrestre são profundas. Planetas terrestres com padrões biosféricos semelhantes aos da Terra poderiam, em tese, gerar formas de vida inteligente com maior frequência do que se imaginava.
Isso também reabre discussões sobre o chamado paradoxo de Fermi, aparente contradição entre a alta probabilidade de vida na galáxia e a ausência de evidências claras de civilizações alienígenas. Entre as explicações possíveis estão a autodestruição de civilizações tecnológicas, o desinteresse em exploração interestelar ou ainda a existência de sociedades avançadas que deixam apenas tecnossinaturas detectáveis, sem buscar contato direto.
Com centenas de bilhões de planetas rochosos na Via Láctea, a probabilidade estatística de mentes alienígenas aumenta significativamente se os chamados ‘passos difíceis’ forem menos raros do que se supunha. Nesse cenário, microrganismos podem ser abundantes no cosmos e a inteligência, embora não inevitável, talvez esteja longe de ser única.
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.