
Os rios do Amazonas, que para os ribeirinhos são caminhos de vida e sustento, tornaram-se também as rodovias do crime. É por eles que o narcotráfico escoa toneladas de entorpecentes vindos da tríplice fronteira com Peru e Colômbia. Mais baratos e discretos que o transporte aéreo, os rios se transformaram em corredores estratégicos para facções que operam como verdadeiras empresas.
É nesse cenário que a Companhia de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar trava sua batalha diária. “O narcotráfico funciona como uma empresa que não para. Nosso trabalho é enfrentar essa estrutura organizada e persistente, e isso exige muito mais do que apenas cumprir obrigação”, resume o comandante da unidade, major Lemos.
Em 2025, a COE completa 35 anos de criação e registrou o maior resultado de sua história: 16,6 toneladas de drogas apreendidas, incluindo a maior operação do ano, que interceptou 6,5 toneladas de entorpecentes, sete fuzis de calibres 7,62 e 223, uma metralhadora calibre 50, uma metralhadora 7,62, uma lancha com seis motores, 5.698 munições de diversos calibres, 102 carregadores, um lançador de granadas, dois celulares, a quantia de R$ 2,5 mil em espécie, além de um confronto entre a equipe policial e os suspeitos que durou cerca de 30 a 40 minutos.
Segundo o major, tudo isso acontece em um cenário de guerra: uma guerra nos rio. “Nas mídias podemos ver no Rio Janeiro uma guerra urbana, mas o que vivenciamos diariamente nas operações da COE é uma guerra nos rios”, explicou.
Na primeira semana de dezembro, duas operações distintas revelaram a sofisticação das facções. Em uma delas, a cocaína estava mergulhada em petróleo, dentro de tambores lacrados. Os traficantes romperam o lacre original e o recolaram com cola industrial, acreditando que o disfarce daria aparência de legalidade e impediria os cães farejadores de detectar o entorpecente. Em outra, a droga foi escondida em cargas de gelo.
Segundo o major, não há limites para a criatividade criminosa. Já foram encontradas drogas em peixe, açaí, cebola e até eletrodomésticos.
“Eles acreditam que vão enganar a polícia, mas nossas equipes de inteligência e os cães da CIPCães têm se mostrado decisivos. Eles só perdem”, afirmou.
Lemos explica o que seria uma cenário de guerra, com missões que chegam a durar mais de 30 dias, policiais enfrentando sol, chuva e frio, alimentando-se apenas de enlatados.
“É como em um filme de guerra. Não há luxo, não há conforto, comendo mal, dormindo mal. É abnegação total para cumprir o objetivo final”, relatou o Major.
ALTO PODER DE FOGO
Além da logística extenuante, o poder de fogo dos criminosos é outro desafio para a Companhia de Operações Especiais. Em 2025, foram apreendidos armamentos pesados, incluindo um fuzil calibre .50 e lança-granadas.
“Eles usam armas que só as forças armadas possuem, pode até ser uma dificuldade a mais. Mas isso não nos intimida. Temos técnica e preparo para enfrentar esse poderio bélico”, garantiu.
As operações também têm impacto direto nas comunidades ribeirinhas. Nós que estamos constantemente vivenciando essa realidade, sabemos que hoje o ribeirinho não vive em paz e nós conseguimos enfraquecer o poder do crime.
“Os traficantes aterrorizam moradores, roubam motores e lanchas, estupram mulheres e adolescentes. Hoje muitos ribeirinhos não saem mais para pescar à noite por medo. Cada carga interceptada significa menos violência”.
Força conjunta contra o narcotráfico
O comandante da COE, major Lemos, fez questão de destacar que nenhum sucesso é possível de forma isolada. Segundo ele, os resultados alcançados em 2025 são fruto da integração entre diferentes instituições de segurança.
“Nossos resultados são em unidade com a força e as operações também da Gaeco, da Polícia Federal através da FICO, e da Polícia Civil, por meio das diversas delegacias especializadas, em especial o DRCO”, afirmou.
Essa cooperação tem permitido antecipar movimentos do crime organizado, ampliar a inteligência das operações e garantir apreensões recordes nos rios do Amazonas.
Prejuízo ultrapassa R$ 634 milhões
O balanço de 2025 destaca que o COE travou uma guerra nos rios do Amazonas com o prejuízo para o crime organizado que ultrapassou R$ 634 milhões.
Mas, para o major Lemos, o resultado mais importante não está apenas nos números. “Terminamos o ano com todos os nossos policiais voltando sãos e salvos para casa. Esse é o maior triunfo. O crime organizado perdeu dinheiro, perdeu armas, perdeu espaço. Só quem tem a lamentar é o tráfico de drogas”, concluiu.
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