
A viagem de três dias de Lula a Berlim se encerrou como a “melhor reunião” já feita entre Brasil e Alemanha na visão do presidente. O chanceler alemão, Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata da Alemanha, recebeu o presidente com satisfação, mas a imprensa alemã não deixou passar as diferenças entre eles.
Antes de deixar Berlim, Lula disse a jornalistas que estava satisfeito com o saldo da viagem. “Muito, mas muito orgulhoso, porque eu já fui presidente por oito anos antes e acho que é a melhor reunião que o governo brasileiro já fez com o governo alemão”, disse.
Scholz ressaltou a proximidade entre os países: “O Brasil é nosso parceiro comercial mais importante na América do Sul”.
E mencionou o empenho de Lula com a preservação ambiental. “Sob sua orientação, a proteção das florestas se tornou novamente prioridade”, disse.
O jornal alemão Deutsche Welle destaca que após a mudança de poder no Brasil, Scholz quer abrir um novo capítulo nas relações “com o maior e mais populoso país da América Latina e recebeu ouvidos abertos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
Mas ao mesmo tempo em que exaltaram a proximidade entre os dois líderes, que compartilham a mesma visão ideológica, a imprensa alemã questionou o posicionamento do presidente brasileiro sobre os conflitos atuais.
Lula foi criticado por não ter classificado o Hamas como um grupo terrorista logo depois do ataque; por ter culpado os dois lados na guerra entre Rússia e Ucrânia e pelo convite a Vladimir Putin para ir ao G20 no Rio de Janeiro em novembro de 2024.
Na declaração conjunta à imprensa junto a Scholz, Lula foi questionado por um jornalista alemão sobre o convite para Putin e seus posicionamentos sobre os conflitos.
O presidente respondeu repetindo seu discurso de defesa da paz, das negociações entre os envolvidos, e culpou a ONU pelo prolongamento das guerras.
O presidente também reforçou o convite ao presidente russo para o G20, apenas dizendo que Putin sabe que tem um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional e pode ser preso no Brasil.
“O farol de esperança Lula, há muito venerado como uma estrela por muitos esquerdistas europeus, tornou-se há muito tempo um parceiro problemático. A sua posição pouco clara na guerra da Ucrânia, a sua hesitação ambígua após o ataque terrorista do Hamas islâmico: tudo isto confunde os europeus – e especialmente os alemães”, diz artigo do ZDFheute, o principal jornal da emissora pública alemã ZDF.
Ao deixar a Alemanha, Lula evitou dar uma entrevista coletiva como tem feito nos encerramentos de suas viagens ao exterior. Preferiu realizar sua live semanal ao lado de ministros.
Ao todo, 19 acordos foram anunciados com os alemães, principalmente em áreas como energia e meio ambiente, mas sem anúncios de investimentos.
Depois de críticas sobre a falta de robustez nas parcerias, a ministra Marina Silva disse a jornalistas na terça-feira (5) que os alemães vão investir cerca de R$ 540 milhões (101,8 milhões de euros) em projetos ambientais no Brasil nos próximos dois anos, para além dos R$ 115 milhões (35 milhões de euros) anunciados em janeiro ao fundo Amazônia.
“Desta vez os projetos incluem todos os biomas brasileiros, o Cerrado, a Caatinga, o Pampa, Pantanal e projetos de biodiversidade, além da Amazônia”, disse Marina.
Junto a Marina, Lula buscou reforçar na Alemanha que tem o meio ambiente como prioridade depois que a entrada na Opep+, em Dubai, ofuscou a agenda verde do governo na COP28.
Outro destaque da viagem foi o clima de fracasso sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia. Depois de praticamente reconhecer em Dubai que o acordo estava enterrado, em Berlim, Lula disse que vai tentar até o fim batalhar pelo seu avanço na reunião do Mercosul nesta semana, no Rio de Janeiro.
“As negociações entre a UE e quatro países sul-americanos sobre uma das maiores zonas de comércio livre do mundo estagnaram”, disse o jornal alemão Tageschau, ressaltando que ainda assim Lula e Scholz falaram sobre se empenhar para levar a cabo o acordo. E foi com essa dura missão que Lula partiu de Berlim rumo ao Rio onde acontece a Cúpula do Mercosul.
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