
Ao total, 116 edifícios estão abandonados em Manaus. 103 deles só na área central da capital, segundo o Implurb.
“Existem essas pequenas jóias espalhadas ao longo de todo centro histórico e eles contam o modos viventi do amazonense daquela época e fora isso guardam em si uma riqueza arquitetônica muito grande no assoalho, nos forros, nas paredes, com pinturas, portões em ferro. Isso tudo é uma riqueza arquitetônica muito grande, um acervo da própria cidade de Manaus. Não se pode perder, é um valor inestimável”, afirmou o historiador Roger Peres.
Acervo urbano que pode ser visto, por exemplo, na esquina das ruas Simon Bolívar com Ferreira, bem ao lado da praça da saudade no Centro da capital. O palacete 5 de Setembro foi construído por volta de 1908 como residência do primeiro presidente do banco amazonense.
No local, também funcionou a escola de magistratura, serviu como gabinete do vice-governador e atualmente está fechado e abandonado.
Riqueza arquitetônica também neste palacete localizado na Avenida Sete de Setembro. Construído pelo superintendente da Manáos Tramways, a empresa que operava bondes elétricos em Manaus, serviu anos depois como residência do ex-governador Gilberto Mestrinho.
Apesar das cercas, o imóvel tem sido invadido e depredado. Situação que gera insegurança.
“Vira local de usuários de drogas. Pessoal acaba invadindo aí até pra cometer crimes né, faz assaltos, sei lá, fica aí dentro. Gera uma insegurança, principalmente a noite”, disse o designer gráfico Janderson Pantoja.
Segundo a Prefeitura de Manaus, a maioria dos prédios abandonados é de propriedade particular. A responsabilidade de limpeza, manutenção e fechamento com muros ou cercas é dos proprietários.
Cabe ao município a fiscalização para que os imóveis não sejam descaracterizados e a vistoria em caso de obras autorizadas.
“O Poder Público, ele não tem a responsabilidade dentro de um imóvel privado. A responsabilidade – poder público federal e municipal – é do conjunto de regras. O que vai ser conservado, o que vai ser preservado e o que vai ser reabilitado para as novas funções sociais”, explicou a arquiteta e urbanista Melissa Toledo.
Para o historiador Roger Peres, alguns motivos explicam a falta de manutenção por parte de alguns donos de imóveis históricos.
“Tem questões de herdeiros, alguns imóveis realmente são fruto de alguma herança e os herdeiros às vezes se arrastam em brigas judiciais durante anos. Tem questões financeiras. As pessoas realmente não tem condições de arcar com o restauro. Eu falo de um restauro sério, técnico. Não é uma coisa realmente barata e quanto mais o imóvel fica deteriorado, mais oneroso ele se torna para se conseguir efetivamente uma recuperação como deve ser feita”, contou.
Mas prédios públicos também sofrem com o abandono. É o caso da Escola Nilo Peçanha. Os sinais de vandalismo são visíveis no prédio.

Foto: Gil Guedes
Outro prédio público abandonado é o da Escola Estadual Saldanha Marinho. A construção de 1901 é tombada como monumento histórico do estado, mas sofre com a depredação e o abandono.
Para a arquiteta e urbanista, preservar deve ser mais que um dever dos proprietários e do poder público, mas um compromisso de toda a população com a história do Amazonas.
“Como é que a gente vai preservar se a gente não conhece?! Então eu sempre falo: ‘Para preservar e cuidar eu tenho que conhecer’. E o processo da educação, educação urbana, patrimonial, é justamente isso. É entender o nosso centro histórico, entender o centro histórico antigo, as edificações, o que foi o ecletismo em Manaus. O que foi no ponto visto urbano arquitetônico e sociocultural para que se tenha uma consciência de que aquela edificação que por ventura eu tenha alguma co-responsabilidade como herdeira, como proprietária, eu também tenho que entender o que eu vou manter ou não”, finalizou.
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