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COM FÉ EM DEUS E ODE ÀS MOTOS, NOVO ‘FUNK CONSCIENTE’ SUPERA LETRAS SEXUAIS E RENOVA O ESTILO

Reprodução/Internet
Reprodução/Internet
15/06/2020 12h00

MC Paulin da Capital acorda, dá um beijo em um crucifixo e outro na chave de sua moto. Ao sair de casa, é enquadrado pela polícia injustamente, só por ser da favela. No fim, ora a Deus para recuperar seu grande amor de duas rodas.

O clipe descrito acima, da faixa “Ô meu robô” (gíria para moto), é a cara de uma nova geração de MCs que renova o funk de SP. Ficam para trás letras sensuais sobre “sentar e quicar”, que dominavam o gênero há vários anos. O estilo conhecido como “funk consciente” se reinventa e ganha força.

Os MCs Paulin da Capital, Lipi e Lele JP têm as vozes mais ouvidas hoje deste funk melodioso que fala sobre a vida difícil na favela, com ecos de louvor religioso. A moto é símbolo comum de superação. O centro da cena é uma produtora chamada Love Funk, na Zona Leste da capital.

Treze das cem músicas mais tocadas no YouTube no Brasil entre 29 de maio e 4 de junho no Brasil são dessa nova leva emotiva do funk consciente. “Sou vitorioso” chegou ao 6º lugar nacional nas vozes de Lele JP e de Neguinho do Kaxeta, veterano da geração anterior do “consciente” de SP.

A coisa ficou séria

O funk paulista está menos festivo e mais sério. Ainda há espaço para sexo e ostentação, mas eles não são mais os temas centrais, como nas duas ondas anteriores do estilo. Há até uma aproximação com o rap em letras combativas, como a do hit em ascensão “Vergonha pra mídia”.

Outro sucesso é “Eu achei”, também do MC Paulin. Aqui, ele acorda, lê uma Bíblia, fuma um baseado, abraça a avó e chora ao ver que sua moto foi roubada. “Cês levou meu pão de cada dia”, lamenta. O drama tem tudo a ver com a cidade carregada pelo trabalho mal pago de jovens entregadores.

O final é feliz: “Graças a Deus eu achei”, canta MC Paulin. A moto estava “no lugar que não entra polícia”. Um mundo duro e injusto, marcado pelo crime, de onde eles tentam sair, marca as letras e a vida dos MCs. No lugar da euforia de hits passados, entram a tristeza e a busca por redenção.

Hit vitorioso e autobiográfico

“A gente revolucionou a parada”, diz o MC Lele JP, de 18 anos, sobre esse novo funk consciente. “Deus colocou os moleques para mudar isso daí.” Ele frequenta desde criança a Igreja Evangélica Vales das Bênçãos, do Jardim Peri, Zona Norte.

A tal revolução não foi fácil na vida de Lele. “Fui pai dos 15 para os 16 anos. Não podia depender da minha mãe e do meu pai, porque eles já carregavam uma responsabilidade imensa. Cuidavam dos meus sobrinhos, de mim, dos meus sete irmãos”, ele conta

O pai adolescente se viu sem saída. “Para um moleque de comunidade, não tem muita opção”, diz Lele. Ele conta que foi procurar trabalho “na boca”. “Fiquei sem chão e minha filha ia nascer. Eu tive que me envolver na ‘vida loca’. Meu maior medo era me prender naquilo.”

A saída para o caminho que ele não queria foi pelo funk, conta Lele. “Um empresário viu um vídeo meu, gostou, e me trouxe para perto”, ele conta.

O hit “Sou vitorioso” conta os três capítulos: a dificuldade (“A marmita era 15 / Não tinha um real no bolso”), a escolha errada (“Os menor sem opção / Solução é ir pra boca”) e a superação (“O jogo virou / Deus abençoou / Todos têm o livre arbítrio / Eu escolhi ser cantor”).

“Muitas pessoas hoje estão com um ponto de interrogação: o que eu vou fazer? Essa música é um testemunho de que Deus é a solução. E serve como inspiração”, diz Lele. A filha, Ana Clara, já tem 2 anos, e agora ele espera o segundo filho, Ravi.

Com informações do G1

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