
G1 – O médium João de Deus está sendo acusado por várias mulheres de abusos sexuais durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia(GO). Os relatos cresceram após as 10 histórias que foram reveladas no programa Conversa com Bial da última sexta-feira (7) e mais 3 casos publicados pelo jornal O Globo.
Os relatos se referem a denúncias de crimes sexuais. Não se trata de questionar os métodos de cura de João de Deus ou a fé de milhares de pessoas que o procuram.
Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, João de Deus afirma que “rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos” e está à disposição da Justiça.
João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, é famoso pelos atendimentos e cirurgias espirituais que faz desde 1976, em Abadiânia, uma cidade com menos de 19 mil habitantes.
Os relatos sobre as curas obtidas pelo médium, incorporando entidades, se espalharam pelo mundo.
Os atendimentos eram realizados na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), onde recebia até 10 mil pessoas por mês – a maioria, estrangeiros.
Os abusos teriam ocorrido em uma sala particular de João de Deus, dentro de sua casa de atendimento em Goiás. As vítimas também relataram que o médium as para um banheiro que está localizado dentro desta sala.
De acordo com os relatos, João de Deus agiu de forma similar em todos os casos. Durante os atendimentos espirituais coletivos, o médium teria dito para as mulheres que, segundo uma entidade, elas deveriam procurá-lo posteriormente em sua sala, porque tinham sido escolhidas para receber a cura.
As entrevistadas dizem que, uma vez que elas estavam sozinhas com ele, eram violentadas sexualmente. Entre as acusações contra João de Deus, estão fazer as vítimas passarem as mãos em seu pênis, além obrigá-las ao sexo oral e até mesmo penetração nas pacientes.
As vítimas relatam que João de Deus dizia que aquele era um procedimento de “limpeza”.
Ainda não se sabe ao certo quantas mulheres denunciaram ou relataram abusos de João de Deus. Os primeiros 13 casos foram revelados pelo programa Conversa com Bial e pelo jornal O Globo. No entanto, após o caso vir à tona, mais 25 mulheres disseram ser vítimas de abuso.
Em São Paulo, a promotora Gabriela Manssur disse que mais de 200 mulheres fizeram relatos semelhantes.
Os casos investigados, por suas peculiaridades, podem se enquadrar em diferentes tipos de crime. De acordo com o Ministério Público de Goiás, os crimes podem ser estupro, estupro de vulnerável, violência sexual e abuso sexual mediante fraude.
Ainda não se sabe ao certo por quais crimes e quantas vítimas João de Deus está sendo investigado. De acordo com o promotor Luciano Miranda Meireles, baseado no caso de 10 vítimas, a pena poderia chegar até 150 anos de prisão e a Casa Dom Inácio pode ser interditada.
O Ministério Público de Goiás diz que os abusos teriam ocorrido desde a década de 80 até outubro de 2017.
Apesar de existirem denúncias contra João de Deus desde 2010, apenas depois dos relatos feitos ao programa Conversa com Bial e ao jornal O Globo novas vítimas começaram a contar seus casos.
O advogado Alberto Toron, que defende o médium, afirmou que o cliente nega as acusações e que ele está à disposição da Justiça para esclarecimentos.
“Muito enfaticamente ele nega. Ele recebe com indignação a existência dessas declarações, mas o que eu quero esclarecer, que me parece importante, é que ele tem um trabalho de mais de 40 anos naquela comunidade, atendendo a todos os brasileiros, gente de fora do país, sem nunca receber esse tipo de acusação”, disse.
O advogado de João de Deus também disse como seria o padrão de atendimento do médium. “Eventualmente atendeu alguma pessoa, alguma autoridade sozinho, isso é um episódio localizado. Mas pessoas, mulheres, crianças em geral, eram atendidas coletivamente diante de um grande número de pessoas”, afirmou Alberto Toron.
A Federação Espírita Brasileira (FEB) divulgou nota afirmando que serviços espirituais não devem acontecer isoladamente, com a presença somente do médium e da pessoa assistida.
“O Espiritismo orienta que o serviço espiritual não deve ocorrer isoladamente, apenas com a presença do médium e da pessoa assistida. Não recomenda, portanto, a atividade de médiuns que atuem em trabalho individual, por conta própria. Estes não estão vinculados ao Movimento Espírita, nem seguindo sua orientação”, disse a nota divulgada no site da FEB.
O MP-GO informou que já existiam denúncias contra João de Deus desde 2010. Em 2012, ele chegou a ser julgado por abuso sexual, mas foi inocentado por falta de provas.
O Ministério Público de Goiás disse ter criado uma força-tarefa para investigar as denúncias contra João de Deus. De acordo com o órgão, quatro promotores serão designados para casos específicos e duas psicólogas estarão à disposição para as vítimas.
As vítimas podem enviar os depoimentos para o e-mail [email protected]. Não é necessário ir a Goiás para a denúncia – as vítimas podem prestar depoimento no MP local.
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