Manaus, 25/07/2026

Educação

Indígena Baniwa se torna o primeiro da etnia a conquistar título de mestre pelo Inpa, em Manaus

Indígena Baniwa se torna o primeiro da etnia a conquistar título de mestre pelo Inpa, em Manaus
04/03/2025 13h00

Joaquim da Silva Lopes, de 34 anos, tornou-se, na sexta-feira (28/02), o primeiro indígena da etnia Baniwa a obter o título de mestre em Biologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPG-Eco) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

A dissertação defendida por Malimaaka (nome de Joaquim na língua Baniwa), no campus do Inpa, fez um estudo sobre o uso de rizomorfos (estruturas de fungos que se assemelham a crinas de cavalo) em ninhos de aves da Amazônia, em especial o japu, ave importante nas narrativas Baniwa por suas características de liderança. 

Participaram da banca de avaliação o diretor do Inpa, Dr. Henrique Pereira dos Santos (ecólogo), e os pesquisadores Dr. Mario Cohn-Haft (Ornitólogo) e Dr. Rogério Hanada (Micólogo).  

“É uma história muito significativa para meu povo e para mim. É uma luta que as lideranças sempre quiseram para a futura geração e resultado do que os Baniwa esperam com nossos estudantes para implementar conhecimento científico em nossa comunidade. Como primeiro indígena Baniwa mestre dentro do Inpa, me sinto orgulhoso e emocionado. Agradeço mais uma vez a minha orientadora Dra. Noemia e minha coordenadora Camila Ribas, e à bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas”, declara Joaquim.

Edital para povos indígenas

Em 2022, o PPG-Eco do Inpa lançou um edital com vagas específicas para povos indígenas. Joaquim, nascido na comunidade situada às margens do rio Ayarí, território indígena no Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, foi um dos selecionados e concluiu sua dissertação em Manaus. 

O estudo teve orientação da pesquisadora Dra. Noemia Kazue Ishikawa e coorientação da Dra. Camila Ribas. Noemia foi uma das idealizadoras do edital da PPG-Eco. 

O edital voltado para os povos indígenas, segundo Noemia, tem o objetivo de reparar as desigualdades de acesso dos indígenas na pós-graduação. 

“Na época, como coordenadora da PPG-Eco, vi que o formato dos editais ao mestrado dificultava o ingresso de indígenas. A começar pela exigência do domínio da língua inglesa.  Felizmente, muitas pessoas como o Joaquim são falantes da língua materna indígena e a língua portuguesa é a segunda língua. Então, substituímos a prova de língua inglesa para a de língua portuguesa”, explica.

Apesar das mudanças, não houve ingresso de participantes em 2021. Em 2022, Noemia ressalta que foi realizada uma prova de conhecimento em Ecologia alinhada à realidade dos indígenas moradores da Amazônia.

“Assim, cinco indígenas ingressaram e o Joaquim é o primeiro a defender sua dissertação. Mesmo o Joaquim tendo feito a graduação na área de Humanas, ele trouxe uma imensurável bagagem de conhecimentos biológicos e ecológicos de sua vivência cotidiana. Ao final, acredito que conseguimos entregar uma dissertação com muito diálogo entre os conhecimentos tradicionais e acadêmicos”, comenta a pesquisadora.

Momento histórico

A Dra. Ana Carla Bruno, antropóloga no Inpa, classifica a conquista de Joaquim como um momento histórico.

“Nestes 70 anos de Inpa, a defesa do Joaquim Baniwa foi um momento histórico para nossa instituição. Os indígenas e seus conhecimentos saem da condição de objetos de estudo para agentes sociais que refletem, questionam e produzem conhecimentos”, destaca.

O Dr. Henrique Pereira, ecólogo e diretor do Inpa, comenta sobre o significado da defesa de mestrado de Joaquim para as políticas de inclusão dentro da instituição, além de relembrar sobre sua defesa no mesmo programa.

“No início dos anos 90, eu defendi minha dissertação de mestrado no mesmo programa de Ecologia do Inpa. Eu era o único amazonense e não biólogo de uma turma de 13 estudantes. Participar do momento histórico da defesa do primeiro estudante indígena e amazonense, como diretor do Inpa, traz muitos significados para mim”.

Assim como Joaquim, o atual diretor do Inpa foi o primeiro da família e antepassados a conquistar um título na pós-graduação. 

“Para o Inpa, esse título representa a afirmação de uma política de inclusão e de diversidade social e o reconhecimento da importância estratégica da aproximação da academia ocidental com as ciências indígenas amazônicas. Nós não seremos capazes de conhecer mais e melhor o bioma, seus ecossistemas, e seus povos e culturas se não formos capazes de ampliar e fortalecer esse diálogo de saberes”, declara.

Trajetória até Manaus 

Nascido na comunidade Canadá (“Koitsiali Inomanaa”, que na língua Baniwa significa “Foz do igarapé Mutum”), Joaquim iniciou seus estudos apenas aos 12 anos, devido a dificuldades logísticas para frequentar a escola, e começou a falar a língua portuguesa aos 15 anos. 

Aos 23 anos, ingressou no ensino superior por meio da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no Instituto de Filosofia Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), no curso de Licenciatura Indígenas Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável.  

As aulas eram realizadas em outra comunidade, na bacia do Rio Içana, a Tunuí Cachoeira. Joaquim frequentava as aulas com mais seis colegas de sua comunidade e demorava dois dias de viagem em uma canoa com motor para chegar ao local. Com vários desafios logísticos, o curso foi concluído em seis anos. 

Após a graduação, Joaquim já demonstrava o interesse em um mestrado, porém não encontrava oportunidades na sua região. Atuou como professor de Biologia na comunidade São Joaquim Alto Rio Içana e em sua própria comunidade.  

“Me deparei com muitas dificuldades para dar aulas de biologia, o mesmo acontecia com meus colegas professores, pois nossa formação era nas áreas de Humanas. Por conta disso, nasceu em mim o sonho de uma pós-graduação nas áreas biológicas”, relata.  

No final de 2022, Joaquim tomou conhecimento das vagas do PPG-Eco do Inpa para povos indígenas e se inscreveu. Aprendeu sozinho a fazer seu currículo Lattes e foi aprovado nas próximas etapas, restando apenas o último desafio, a matrícula em Manaus. 

“Era a chance que eu tinha de buscar conhecimento nas áreas biológicas para indígenas em minha comunidade e também para o Centro de Pesquisas e Formação Indígena Enopana, também localizado na comunidade Canadá”. 

Antes de completar a última etapa para iniciar os estudos do mestrado, Joaquim passou por uma situação inusitada em sua comunidade.

“Exatamente quando andava perto do igarapé preocupado em como ia viajar para Manaus para começar meus estudos, fui picado por uma cobra Jararaca adulta e fiquei aos cuidados do meu pai. Passei quatro dias isolado dos outros na minha comunidade”, conta Joaquim.

Neste momento, Joaquim pensou que era o fim do sonho de estudar no Inpa, mas a situação acabou contribuindo para que ele conseguisse ser deslocado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) em um pequeno avião para São Gabriel da Cachoeira.

“De São Gabriel da Cachoeira, consegui uma viagem para Manaus a convite da Dra. Noemia e consegui me matricular a tempo. Minha primeira grande viagem”.

O japu e o Estudo sobre os Rizomorfos 

Em Manaus, já cursando as disciplinas, Joaquim estava em busca de seu tema de estudo.  A sua orientadora, Dra. Noemia, propôs um estudo sobre o uso de rizomorfos na construção dos ninhos, algo que ela já havia se deparado em estudos pelo Grupo de Pesquisas Cogumelos da Amazônia.

Em uma visita ao Museu da Amazônia (Musa), ambos se depararam com um ninho da ave japu (Psarocolius decumanus) e observaram que sua estrutura continha rizomorfos. 

“Assim foi definido meu tema de pesquisa, pois o japu é uma ave importante para a cultura Baniwa e poderia trazer contribuições para meu povo. Para isso, também contei com a ajuda e coorientação da Dra. Camila Ribas, líder de pesquisa do Grupo de Pesquisas Avifauna da Amazônia”, explica Joaquim.  

Os ninhos de japu, chamadas de Towiri pelos Baniwa, já eram algo comum no cotidiano de Joaquim, pois podem ser encontrados próximos à comunidade Canadá. As penas amarelas da ave também são utilizadas para ornamentar as cangataras (cocares) das lideranças Baniwa.

O estudo examinou ninhos de japu tanto em Manaus como em São Gabriel da Cachoeira, e realizou análises moleculares filogenéticas para identificar os rizomorfos incorporados. Os resultados mostraram que pertenciam à espécie Marasmius neocrinis-equi, uma espécie de fungo ainda não relatada no Brasil.

A descoberta solucionou um mistério que se iniciou com o relato de Emílio Augusto Goeldi, em 1897. Goeldi relatou que um dos materiais empregados pelo japu na construção do ninho era uma “Substância peluda preta, muito parecido com cabelos (crinas) de cavalo”, mas a determinação exata não foi possível na época. 

Mais tarde, no trabalho de Joccquer Huber, em 1902, o material foi identificado como rizomorfos de Marasmius. Joaquim responde com sua pesquisa uma pergunta que já durava 123 anos sobre qual a espécie do Marasmius é utilizada pelo japu. 

“É uma grande contribuição científica e um relato inédito da espécie no Brasil. Até então, essa espécie, Marasmius neocrinis-equi, só havia sido identificada na Guiana, Costa Rica e Equador pela pesquisadora Rachel Koch”, ressalta Joaquim. 

Além disso, a pesquisa de Joaquim revelou que sete espécies de aves que utilizam rizomorfos em seus ninhos não estavam listadas em revisões anteriores. Assim, o número total de espécies de aves conhecidas por usar rizomorfos aumentou de 176 para 183.

“E podemos afirmar que novidades e descobertas estão a caminho com os ninhos que ainda estamos analisando”, ressalta a Dra. Noemia Ishikawa.

Fonte: Portal Acritica

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