
A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, COP30, que será realizada pela primeira vez em uma cidade da Amazônia, em Belém, no Pará, representa uma oportunidade para demonstrar que o combate às mudanças climáticas é também uma oportunidade econômica. Em entrevista ao grupo de Jornalistas Climáticos da Universidade de Oxford, o embaixador brasileiro e presidente da conferência, André Lago, afirma que o crescimento dos eventos climáticos extremos está fazendo o negacionismo climático perder força.”O número de eventos climáticos extremos no ano passado foi um pesadelo em várias partes do mundo. É muito difícil negar essa realidade agora. No entanto, o novo discurso é que combater isso custa caro demais e piora a vida das pessoas. E acredito que temos argumentos fortes para rebater isso”, afirma Lago.
Cientistas alertam que a seca histórica registrada nos rios da Amazônia em 2024 é um sinal da intensificação dos fenômenos climáticos. No Amazonas, a Defesa Civil estimou que mais de 770 mil pessoas foram afetadas. Um levantamento do InfoAmazônia indica que 69% dos municípios da região foram diretamente impactados.
Para Lago, a velocidade desses fenômenos gera um alerta para os negociadores. “As pessoas estão cansadas de negociações. Elas querem ver implementação, ação e resultados concretos”, afirma o embaixador.
Sobre a organização da COP30 no Brasil, Lago destaca a decisão do governo de garantir maior participação dos povos indígenas. “Temos trabalhado de perto com o Ministério dos Povos Indígenas. A decisão do Presidente Lula de sediar a COP na Amazônia tem um simbolismo enorme. Queremos que os povos indígenas tenham voz em todas as discussões”, afirma.
Um dos pontos centrais dos debates será o financiamento climático. Sobre os US$ 300 bilhões acordados na COP29, Lago reconheceu que esse valor é insuficiente. “Todos sabemos que os 100 bilhões prometidos em Copenhague são altamente debatidos. Dizem que esses 100 bilhões vieram entre 2020 e 2025, mas sabemos que algumas ONGs e think tanks calcularam que o valor real foi muito menor”, aponta.
A saída dos Estados Unidos do acordo de financiamento climático gera novos desafios para a meta de US$ 1,3 trilhão anuais em apoio a países em desenvolvimento. Lago ressaltou que isso afeta outros doadores, como os países europeus e o Japão. “Essas transferências financeiras já são impopulares em muitas eleições”, observou.”Nunca conseguiremos US$ 1,3 trilhão apenas com doações. Precisamos mudar a percepção sobre como investimentos e financiamento podem chegar aos países em desenvolvimento”, enfatizou. Ele defende uma reformulação na visão do setor financeiro em relação ao financiamento climático.
Para o embaixador, a exploração de petróleo nas reservas da margem equatorial do Brasil é um debate interno que esbarra nos compromissos ambientais do país. Lago lembra que, nos anos 1970, Brasil, Índia e Japão foram os mais afetados pela crise do petróleo. “Agora, o petróleo será nosso principal produto de exportação neste ano. Como lidar com isso?”, enfatizou. O embaixador comentou sobre a participação do Brasil na OPEP+, destacando que, diferentemente dos países membros, o Brasil possui uma Petrobras parcialmente privatizada. “Nossa participação será diferente”, explicou.
A meta de 1,5°C, estabelecida no Acordo de Paris em 2015, visa limitar o aumento da temperatura média global. Contudo, especialistas alertam que é necessário um esforço coletivo e colaboração entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento.
Ao ser questionado sobre o futuro da meta de 1,5°C, Lago admitiu que há dúvidas dentro da comunidade internacional. “Os dados de janeiro são absolutamente alarmantes. Isso pode levar a uma nova forma de resistência à luta contra a mudança climática.”
Ainda assim, ele defendeu a necessidade de continuar os esforços de mitigação. “Se a ciência nos diz que temos poucos anos para fazer um bom trabalho, temos que tentar. Não temos nada a perder em fazer tudo o que for possível com as tecnologias disponíveis.”
Na próxima semana, André Lago divulgará uma carta à comunidade internacional, destacando a urgência de criar mecanismos eficazes que acelerem o progresso nas negociações climáticas. “Esse é um ponto que enfatizo muito: como podemos avançar mais rapidamente?”, afirmou.”Precisamos reconhecer que, graças à UNFCCC e ao Acordo de Paris, o tema do clima agora é uma pauta natural em qualquer reunião sobre praticamente qualquer assunto. Isso é resultado de melhor ciência, melhor informação e, infelizmente, do grande aumento de eventos trágicos”, conclui.
Fonte: Portal Acritica
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