Manaus, 05/06/2026

Amazonas

Novo El Niño acende alerta para seca e queimadas no Amazonas

Em 2023 e 2024, fumaça de queimadas se somou a períodos de seca e calor intenso, piorando a qualidade de vida nas cidades amazônicas. Manaus, Belém, Porto Velho e rio Branco também sofreram (Foto: Arquivo AC)
Em 2023 e 2024, fumaça de queimadas se somou a períodos de seca e calor intenso, piorando a qualidade de vida nas cidades amazônicas. Manaus, Belém, Porto Velho e rio Branco também sofreram (Foto: Arquivo AC)
05/06/2026 13h40

A probabilidade de 80% de um novo El Niño no segundo semestre, com intensificação da seca no Amazonas, preocupa não apenas pelos impactos econômicos e sociais, mas também pelos efeitos na saúde. Nas duas últimas ocorrências intensas do fenômeno (2023/2024 e 2015/2016), houve aumento significativo dos focos de calor e, consequentemente, da fumaça provocada por queimadas.

Nesta semana, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou haver 80% de probabilidade de um episódio de El Niño entre junho e agosto. A agência prevê um episódio ao menos moderado do fenômeno, mas ainda não é possível descartar um nível mais intenso (saiba mais abaixo).

Em 2023 e 2024, sob a influência do fenômeno, o Amazonas registrou 19.601 focos de calor no primeiro ano e 25.499 no segundo, este último o atual recorde. Em ambos os períodos, Manaus e municípios do interior passaram meses encobertos pela fumaça das queimadas. O cenário foi grave ao ponto de o Aeroporto Internacional de Manaus precisar cancelar voos.

As estiagens deste dois anos também foram históricas, com a de 2024 atingindo o pior nível já registrado. O Rio Negro, em Manaus, chegou a 12,11 metros. Segundo especialistas, a ausência de chuvas e as secas prolongadas criam um ambiente propício para que o fogo, amplamente utilizado na agropecuária para a limpeza de terrenos e outras atividades rurais, se alastre pela mata.

Uma década atrás

A memória recente da fumaça de queimadas em períodos de El Niño já não é algo tão raro. Há uma década, entre 2015 e 2016, o Amazonas viveu um cenário semelhante, embora em níveis inferiores aos recordes registrados em 2023 e 2024.

Em 2015, o fenômeno começou a se intensificar ainda em maio e já impactou a estiagem do segundo semestre, que se tornou uma das mais severas deste século. Com a vegetação mais seca, o número de incêndios aumentou, chegando a 13.419 focos no ano, e Manaus e outras cidades ficaram encobertas pela fumaça das queimadas. Nesse período, também houve cancelamentos de voos no estado devido à baixa visibilidade.

O mesmo ocorreu em 2016, quando a região ainda estava sob influência do El Niño, já em fase de enfraquecimento. Mesmo assim, a estiagem permaneceu intensa, com 11.173 focos de calor registrados, e a população de Manaus e de outros municípios voltou a conviver com a fumaça. Assim como no ano anterior, a fumaça também provocou cancelamentos de voos no estado.

Ações

Procurada pela reportagem, a Defesa Civil informou que o Estado mantém ativa a Operação Tamoiotatá, que durante a estiagem concentrará os esforços na contenção de incêndios florestais. A atuação irá focar, sobretudo, em 11 municípios prioritários, que historicamente acumulam maiores ocorrências: Lábrea, Apuí, Novo Aripuanã, Boca do Acre, Manicoré, Canutama, Humaitá, Maués, Autazes, Tapauá, Manaus e Itapiranga.

O Estado também está em fase final de elaboração do seu Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, que irá sistematizar ações estratégicas já existentes e definir novas diretrizes, metas e mecanismos de monitoramento para o médio e longo prazo. A previsão de conclusão é setembro de 2026.

O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), pontuou que, entre maio de 2025 e maio de 2026, o número de municípios com bases permanentes da corporação mais que dobrou, passando de 11 para 24 cidades, dessas, 13 com Grupamentos Integrados de Combate a Incêndio e Proteção Civil (GCIP).

Cada novo município também recebeu uma viatura com capacidade para 10 mil litros de água. Entre 2019 e 2025, o CBMAM saiu de 692 servidores para 1.537 militares na corporação. Um aumento de 123%, reflexo da realização do concurso público para a corporação em 2021, o primeiro em 11 anos.

Na última sexta-feira (29), o CBMAM lançou a operação Amazonas + Verde com a entrega de 20 novas viaturas, sendo 17 picapes 4×4 equipadas com kits de combate a incêndio e três veículos destinados ao transporte de tropa, além de 453 equipamentos multimissão para atuação operacional.

Prefeituras do AM procuram ajuda

Devido ao histórico de queimadas durante secas intensas, a Associação Amazonense de Municípios (AAM) já tem procurado os governos estadual e federal para pedir auxílio aos municípios no combate a incêndios. Em maio, o presidente da entidade, Anderson Sousa, afirmou a associação fez um pedido à Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) para ajudar os gricultores a manter a limpeza do solo, mas sem o uso do fogo.

“A nossa associação fez projetos para a Sudam, com previsão de que a prefeitura participante receba uma retroescavadeira, triturador de madeira, tratorito, trator de pneu com arado, para que eles possam fazer a correção do solo por meio do calcário, evitando a queimada”, afirmou, na ocasião.

Ele explicou que os agricultores geralmente fazem a queimada porque o carvão gerado faz com que a terra fique adubada, mas defendeu que o calcário é uma opção melhor para exercer essa função.

“A Sudam encaminhou nosso pedido, também, para o Ministério da Agricultura, e esperamos ter uma resposta com rapidez para que possamos, antes do período do verão, ter essas providências tomadas”, comentou.

‘Amazônia precisa se adaptar’

O meteorologista Carlos Nobre, referência global em estudos sobre mudanças climáticas, afirmou em reportagem de A CRÍTICA publicada em maio que existe uma probabilidade de 20% de que será um El Niño forte, 20% de ser muito forte, mas também 20% de que seja uma ocorrência de caráter médio.

“Essas são as probabilidades que a ciência está dizendo, hoje, mas nós temos que esperar um pouco mais. Em junho ou julho a gente já poderá ter uma noção bem melhor para dizer se o fenômeno vai ficar no médio, forte ou muito forte”, disse.

O professor lembrou que as secas de 2023 e 2024 foram influenciados pela última ocorrência do En Niño, por isso é tão importante que a população da Amazônia e os governos fiquem atentos às previsões.

“A adaptação é um enorme desafio. Em 2023 e 2024, eram centenas de milhares de populações da Amazônia prejudicadas. Não tinha mais o rio, havia falta de água potável, dificuldade de obter alimento, prejuízos na economia. Então, é preciso começar a planejar adaptação para toda a população amazônica para novas ocorrências do El Niño”, aconselhou.

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