
Tripas dos Bois Caprichoso e Garantido falam sobre a preparação física para carregar o peso do Item 10
PARINTINS, AM – Carregar o peso de um item oficial do Festival de Parintins às vezes é mais que uma mera expressão filosófica. Como no caso do Item 10, Boi Bumbá Evolução, este ‘peso’ é literalmente carregado na arena por seu operador, o chamado tripa. O tripa é a pessoa que ‘veste’ a pele do Boi e é responsável por todos os movimentos do animal no Bumbódromo.
Embora seja feito, em sua maior parte, de pano e espuma, a confecção do Boi também inclui ferros, plásticos e outros materiais que acabam somando ao peso de até 15 kg desta estrutura. Carregar o Boi é a parte mais fácil, difícil é se ingerar* nele, tendo que dançar, girar, andar por toda parte e interpretar as toadas sem abrir mão da suavidade dos movimentos, característica que torna o Boi quase real na arena.
Além de treinos intensos de coreografia e ensaios de posições, para carregar o Boi de pano é necessário ter uma rotina de treinamento resistido e cardiorrespiratório, ou seja, a boa e velha musculação e cardio. Segundo Alexandre Azevedo, tripa oficial do Boi Caprichoso, os treinos de crossfit são indispensáveis na preparação para a arena. “Eu faço crossfit de segunda à sexta, pois o cross é um treino muito pesado e no fim de semana tem os eventos de boi que já servem de treinamento. Para dar vida ao Boi Caprichoso tem que estar com o abdômen bem contraído, o core fortalecido, dançar, mexer a cabeça do Boi e tudo isso demanda energia e resistência. Se eu não tivesse preparação física, não conseguiria executar isso”, detalhou o artista.
Outro detalhe importante que às vezes passa despercebido é o fator calor. A Ilha da Magia é bastante conhecida por seu clima quente e úmido de floresta tropical, chegando fácil à sensação térmica de 40°C, assim como em todo o estado do Amazonas. Por isso, estar coberto por um Boi de pano se torna ainda mais desafiador do que parece. O calor e a emoção não são apenas sentidos na Galera, o item 19, mas também debaixo do item 10, Boi Bumbá Evolução, como afirmou Denison Piçanã, tripa oficial do Boi Garantido. “A ‘quentura’ é demais lá dentro. A gente pega o Boi com 15 kg e deixa ele com 100 kg, pois a gente [os tripas] dança agachado e depois de cinco minutos a perna não obedece mais o corpo. Minha rotina de treino é corrida demais, eu faço funcional e depois vou para a natação, pois a preparação do tripa é diferente dos outros itens”, contou Piçanã, detalhando a rotina exaustiva de treinamentos.
Além de todo o treinamento cardiovascular e de resistência, seguir uma alimentação balanceada e sem exageros é ideal para manter o peso corporal controlado, a fim de não pesar demais na hora do show, como afirma Edson Azevedo, mais novo tripa do Boi Caprichoso. “Eu faço academia todos os dias e crossfit três vezes por semana. Minha nutricionista ajusta minha dieta para que eu não fique muito pesado, pois além do meu joelho sustentar meu peso de 75 kg, tem mais 13 kg do boi”, explicou o tripa.
Outro fator determinante para um bom desempenho na arena é alimentação pré-festival. Comer para ter energia é uma peça fundamental e decisiva no bumbódromo. Não dá para comer de menos, para não faltar energia e não dá para comer demais para não prejudicar a digestão, como ainda afirma Piçanã. “Em termo de alimentação, eu como de tudo, sou caboclo da baixa, perreché e Deus quis assim. Minha última refeição séria antes de entrar na arena é o almoço, depois, na sala dos itens, a gente fica só nos petiscos e na água. Não dá pra ‘encher o bucho’ porque a gente dança e pode dar congestão. Quando eu pego esse Boi, eu saio de mim e incorporo ele”, finalizou o artista parintinense.
*Se ingerar: expressão indígena e ribeirinha que significa “captação ativa de forças e saberes de algo”
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