
Para os moradores do conjunto Francisca Mendes, na Zona Norte de Manaus, o som das obras e a movimentação de máquinas são o prenúncio de uma transformação histórica. No subsolo, mais de 31 mil metros de uma nova rede coletora de esgoto estão sendo implantados pelo programa “Trata Bem Manaus”. A iniciativa, que criará *4,5 mil novas ligações*, é um marco para a saúde pública local, e alcança diretamente cerca de 20 mil pessoas. Mas a iniciativa também contribui para a raiz de um problema crônico: as doenças de veiculação hídrica.
“Esta é uma obra de grande impacto, que vai mudar a realidade do saneamento na área”, afirma Wendel Sousa, gerente de Engenharia da concessionária Águas de Manaus. Ele explica que o projeto não apenas moderniza a infraestrutura, mas devolve a dignidade para milhares de famílias que conviveram por anos com os riscos do esgoto a céu aberto.
A falta de saneamento básico cria um ciclo de contaminação que afeta, sobretudo, os mais vulneráveis. A nutricionista Flávia Garcia, especialista em nutrição integrativa, detalha como essa condição ambiental se traduz em problemas de saúde graves e, muitas vezes, silenciosos “Populações sem acesso a saneamento básico e água limpa entram em um ciclo de má nutrição que favorece a proliferação dos parasitas”, aponta.
Ela explica como esta condição afeta o cotidiano. “As verminoses ainda são um problema de saúde pública no Brasil. Parasitas como giárdia, lombriga humana e tênias dificultam a absorção de vitaminas e minerais e, em casos mais graves, podem até obstruir a parede intestinal”, explica Garcia. “Eles retiram do hospedeiro os nutrientes necessários para sua reprodução, alteram as funções fisiológicas e intoxicam o metabolismo. Nossa imunidade começa no intestino. Se há presença de parasitas, é impossível fortalecê-la plenamente.”
A especialista alerta que os sinais clínicos são a pista para um problema que exames convencionais podem não detectar. “Um dos sintomas mais comuns é a deficiência de vitaminas do complexo B, selênio e zinco. O paciente não consegue fazer a absorção necessária, o que ocasiona cansaço físico e mental, fadiga crônica e imunossupressão”, detalha a nutricionista Flávia Garcia.
Essa realidade é o drama diário de muitas famílias. Para Juliana Silva, mãe de duas crianças, a rede coletora aponta para o fim de uma angústia constante.
“Era um ciclo que não tinha fim: a gente tratava nosso filho dos vermes em casa, mas a fonte do problema continuava aqui fora, na rua. Essa obra é a esperança de que ele possa finalmente crescer saudável, sem adoecer sempre pela mesma causa”, relata a moradora.
Um Investimento em dignidade e futuro
O avanço no Francisca Mendes é parte de um esforço contínuo para universalizar o tratamento de esgoto na capital. Wendel Sousa, gerente de Engenharia da Águas de Manaus, reforça que o impacto transcende a saúde.
“Quando falamos em levar saneamento para essas pessoas, também estamos falando em proporcionar mais qualidade de vida, saúde e dignidade. Mas, para que isso aconteça, precisamos da participação de todos, por meio da conexão ao sistema. Por isso, estamos deixando, em frente a cada imóvel, um ponto de ligação. É por meio dele que os moradores poderão se interligar à rede e fazer sua parte no processo de melhorias que o serviço traz”, ressalta o gerente.
Um desafio nacional
O que acontece em Manaus espelha um movimento nacional impulsionado pelo Marco Regulatório do Saneamento (Lei 14.026/2020). O Brasil viu um boom de investimentos, mas ainda enfrenta desafios monumentais, com cerca de 90 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto.
Nathalia Barreto, sócia do escritório Razuk Barreto Valiati, explica a dimensão econômica do problema. “O acesso ao saneamento básico gera uma economia milionária aos cofres públicos, é um investimento na qualidade de vida da população”, destaca. “A universalização do saneamento poderia reduzir as internações devido a essas enfermidades. Estima-se que a melhora desses índices resultaria em uma economia de quase R$ 50 milhões aos cofres públicos, considerando um custo médio de R$ 506 por internação.”
Para as quase 20 mil pessoas do Francisca Mendes, esses dados macroeconômicos se traduzem em uma realidade palpável. Cada metro de tubulação instalado é um passo a menos até os postos de saúde e um passo a mais em direção a um futuro onde a dignidade e a saúde não são mais um sonho, mas um direito garantido.
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