
A biodiversidade amazônica ganhou novos registros na literatura científica internacional com um toque da cultura popular do Amazonas. A cientista amazonense Larissa Queiroz publicou um estudo na revista científica Zootaxa, no último dia 23 de julho de 2026, descrevendo quatro novos gêneros e nove novas espécies de Proscopiidae, grupo de gafanhotos frequentemente confundido com bichos-pau. Entre as espécies descritas está Kamara kratxatxa, que faz referência à toada “Kamara”, lançada pelo Garantido em 2026.
Desenvolvida em parceria com os pesquisadores José Albertino Rafael e Raphael Aquino Heleodoro, a pesquisa reforça que a ciência também pode ser uma ferramenta de valorização da identidade amazônica ao eternizar, por meio da nomenclatura científica, referências à cultura, à história e aos povos da região.
“Como cientista amazonense que trabalha descobrindo a diversidade de insetos que existem na Amazônia, acredito que a nomenclatura científica também pode valorizar a história, a cultura e os povos da nossa região”, destacou Larissa ao comentar a publicação do estudo.
Entre as espécies descritas está Kamara kratxatxa, uma das novas espécies da Amazônia brasileira diretamente inspiradas pelo universo cultural do Boi-Bumbá Garantido. O nome, que significa “gafanhoto-onça”, faz referência à toada “Kamara”, lançada pelo Garantido em 2026.

A construção da nomenclatura contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua e da cultura indígena ao nome científico da espécie.
Outra descoberta apresentada no artigo é Proscopia caacy, inspirada na toada “Mãe da Mata”, de 2011. O termo “caacy”, de origem tupi-guarani, significa “mãe da floresta” e, no artigo científico, a espécie foi dedicada ao Festival Folclórico de Parintins, uma das maiores manifestações culturais da Amazônia e do Brasil.

Segundo Larissa, a escolha dos nomes não foi apenas uma homenagem, mas também uma forma de aproximar a pesquisa científica da cultura regional e dar visibilidade internacional ao patrimônio amazônico.
“Foi pensando nisso que eternizei essas referências na literatura científica internacional”, afirmou a pesquisadora.

Além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade dos Proscopiidae — um grupo de gafanhotos frequentemente confundido com bichos-pau —, o trabalho demonstra como a ciência pode dialogar com as tradições populares e com os saberes dos povos originários.
Para Larissa, as descobertas representam mais do que a descrição de novas espécies. “Sempre acreditei que a ciência também pode contar histórias. Espero que essa pesquisa contribua para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e mostre que ciência e cultura caminham juntas, valorizando aquilo que torna a nossa região tão única”, destacou.
Ao encerrar a publicação, a cientista também fez referência bem-humorada à paixão pelo Boi Garantido, afirmando que espera continuar desvendando a biodiversidade brasileira e, ao mesmo tempo, “perpetuar a perrechéologia”, em alusão ao tradicional grito da torcida encarnada.

O estudo representa um importante avanço para a entomologia brasileira e evidencia que a produção científica também pode preservar e divulgar elementos da identidade amazônica, levando a cultura regional para além das fronteiras do país por meio da literatura científica internacional.
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