
A deputada federal Benedita da Silva (PT), uma das vozes mais experientes da política fluminense, fez um duro e emocionado discurso nesta quarta-feira (29) na Câmara dos Deputados, criticando a megaoperação policial que resultou em mais de 100 mortes nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. A parlamentar, que viveu em favelas por 57 anos, refutou a acusação de que a esquerda defende criminosos, afirmando que seu foco é a proteção dos moradores.
A deputada iniciou seu discurso traçando um paralelo entre sua experiência de vida e a violência da operação, classificando a situação como uma grave violação de direitos.
“Quem está falando aqui é alguém que morou no morro 57 anos da minha vida. Não pode ser natural você ir para um território onde tem milhares de pessoas e querer fazer uma operação a céu aberto, colocando as famílias em pânico, colocando as crianças fora da escola. Qual é o resultado dessa mega-operação? É de doer.”
Benedita da Silva se dirigiu diretamente às críticas que a esquerda recebe por questionar a letalidade policial, esclarecendo o foco de sua defesa:
“Para a gente é de doer de vir a essa casa dizer que nós, a esquerda, a esquerda protegem bandido. Nós protegemos as famílias decentes que vão limpar a casa dos senhores e das senhoras, que cuidam dos seus cachorros, dos seus filhos. São essas pessoas que nós defendemos. E elas moram lá porque não podem morar no palácio onde nós moramos.”
A parlamentar lamentou o número oficial de mortos, que já superava 64, e fez uma crítica contundente à gestão do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).
“Foram mortos mais de 64 e eu tenho certeza de que tem mais por aí. Foram policiais, foram agentes de segurança pública, foram pessoas inocentes, porque vocês não acreditam que tenham pessoas inocentes. E se tem uma pessoa que não é inocente no Estado do Rio de Janeiro, é o governador do Estado. É o governador do Estado.”
Finalizando seu discurso, Benedita da Silva compartilhou a dor que sente, mesmo tendo deixado a favela há anos, reforçando seu vínculo com os moradores:
“Gente, eu digo com muita tristeza no meu coração, me dá muita vergonha, nos meus 83 anos de idade eu continuo sofrendo pelo meu povo. Não moro mais no morro, mas eu sinto a dor. Eu saí da favela, mas ela não saiu de mim. Eu conheço a dor daquela gente. Eu conheço a maldade, a perversidade de quem governa e não sabe governar.”
O discurso inflamado da deputada adiciona um peso político e pessoal à crescente onda de críticas sobre a operação, que é considerada a mais letal da história do estado.
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