
Na política, experiência conta, discurso ajuda, mas estrutura decide eleição. E o cenário que começa a se desenhar no Amazonas aponta para uma disputa ao Senado duríssima, talvez uma das mais difíceis dos últimos tempos.
O movimento central desse tabuleiro envolve o governador Wilson Lima, que deverá disputar o Senado Federal compondo a chapa do prefeito de Manaus, Davi Almeida, provável candidato ao Governo do Estado.
Para isso, ambos tendem a se desincompatibilizar dos cargos. Wilson Lima deixaria o Governo para concorrer ao Senado; Davi Almeida sairia da Prefeitura para disputar o Executivo estadual. Com isso, entra em funcionamento uma engrenagem política poderosa.
No Governo do Estado, assume o vice Tadeu de Souza, alinhado ao mesmo projeto político. Na Prefeitura de Manaus, assume o vice Renato Junior. Ambos passam a dar sustentação política às candidaturas de Wilson Lima e Davi Almeida.
Na prática, isso significa duas máquinas administrativas operando juntas: a do Governo do Estado e a da Prefeitura de Manaus. Quem conhece política sabe exatamente o peso disso.
É nesse contexto que se insere a situação do senador Eduardo Braga.
Eduardo deverá compor a chapa do também senador Omar Aziz, que é um forte candidato ao Governo do Estado, especialmente pela ampla articulação que possui no interior do Amazonas, pela relação sólida com prefeitos, vice-prefeitos e lideranças municipais.
Eduardo Braga e Omar Aziz têm uma história longa. São mais de 40 anos de amizade, além de um histórico político marcado pela lealdade. Já disputaram eleições juntos e Omar Aziz já foi vice-governador de Eduardo Braga. Trata-se de uma aliança testada pelo tempo.
Na minha opinião, se a eleição para o Senado fosse hoje, uma vaga estaria praticamente definida: a do deputado federal Capitão Alberto Neto, do PL. Ele tem voto consolidado, forte identificação com a direita e base eleitoral fiel.
A segunda vaga, no entanto, seria um páreo duríssimo entre Wilson Lima, Eduardo Braga e o senador Plínio Valério.
Plínio Valério também disputa o eleitorado da direita e tende a dividir esse campo com Wilson Lima. Vale lembrar que Wilson, apesar de não ser um político ideologicamente radical, representa o União Brasil, partido que apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro, o que lhe garante simpatia significativa junto ao eleitorado conservador.
Ou seja, o jogo fica ainda mais complexo.
E aqui faço um ponto central: Wilson Lima, com o apoio de duas máquinas administrativas, é um perigo eleitoral. Não é teoria. É fato histórico recente.
Para quem não lembra, quando Wilson Lima disputou a reeleição ao Governo do Estado, meses antes da eleição ele registrava cerca de 70% de rejeição. Muitos apostavam que ele sequer seria candidato. Foi. E não apenas foi candidato — se reelegeu governador.
Com apoio de quê? Da máquina do Governo do Estado.Esse episódio comprova algo que a política ensina há décadas: máquinas administrativas têm um poder gigantesco de alterar cenários eleitorais, reduzir rejeições, ampliar presença e sustentar candidaturas mesmo em contextos adversos.
Não estou dizendo que Wilson Lima já está eleito. Ninguém está. Eleição quem decide é o povo. Mas seria ingenuidade ignorar o peso de duas estruturas administrativas trabalhando politicamente para um mesmo projeto.
Por isso, tanto Eduardo Braga quanto Plínio Valério, se quiserem vencer essa eleição, terão que ralar muito. Muito mesmo. Articulação política forte, presença constante no interior, diálogo permanente com bases, boa relação com a imprensa e, claro, apoio financeiro sólido.
Sem estrutura financeira, ninguém chega forte a uma eleição majoritária desse tamanho.
O cenário está aberto, mas uma coisa é certa: será uma eleição dura, desgastante e altamente competitiva. E quem subestimar o poder das máquinas administrativas corre sério risco de ficar pelo caminho.
Na política, não vence quem tem apenas história. Vence quem entende o jogo — e joga com todas as peças disponíveis.
Por Marcelo Generoso – jornalista e comentarista político
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